Oração

Este artigo é uma catequese sobre a oração, apresentando o sentido, a origem e a importância das principais orações cristãs: o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Vinde Espírito Santo. Um conteúdo formativo para rezar com mais consciência e viver melhor a fé.

Tratando sobre a oração

No tema de hoje, vamos falar a respeito de algo fundamental na vida do cristão: a oração.

Os principais tópicos que separei para esse tema são:

O que é?

“Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria”, Santa Teresinha do Menino Jesus

O Catecismo da Igreja Católica fala sobre a oração do inciso 2558 ao 2565 e logo no início traz para nós essa frase de Santa Terezinha sobre a oração.

São João Damasceno, ainda no catecismo, vai nos dizer:“A oração é a elevação da alma para Deus ou o pedido feito a Deus de bens convenientes”.

Com essas duas frases já é possível tirar uma síntese do que é a oração: a oração é o ato de me relacionar com Deus, seja por pensamentos ou palavras, me comunicar com ele através dos meus sentidos, palavras ou pensamentos.

Numa oração é possível agradecer, é possível louvar, é possível pedir, é possível desabafar; assim como nos comunicamos entre nós mesmos também podemos nos comunicar com Deus. Deus é para nós Pai, amigo, consolador, conselheiro, defensor e vários outros atributos poderia mencionar sobre a atuação Dele em nossas vidas.

Deus é onisciente; ou seja, sabe de todas as coisas. Entretanto o mesmo quer de nós uma relação pessoal, porque é através de uma relação pessoal: nos abrir a Ele, confessarmos nossas misérias, pedir auxílio, agradecer, desabafar, perguntar e até mesmo responder, é que vamos criando nós um vínculo mais forte com Ele de amor, confiança e amizade. É por esse motivo que, mesmo sabendo onde estava Adão, Ele pergunta “Onde estás?” (Gênesis 3:9). Adão havia acabado de romper um elo com Deus através do pecado, mesmo assim é Deus quem o procura a fim de se relacionar e restaurar seu vínculo. Adão, porém, não confessa sua miséria, prefere culpar Eva e Eva à serpente.

A oração é um dom de Deus, um dom que Ele nos deu para que nos aproximemos mais e mais Dele, para que aprendamos a amá-lo mais, para que aprendamos a nos lançar aos braços Dele.

Qual é a importância de orar?

Sendo nós seres sociáveis por natureza, uma relação sem diálogo, sem intimidade, inevitavelmente morre.

Todos nós nascemos com uma vocação universal: à santidade, o amor a Deus. Ou seja, sendo essa nossa vocação, é também parte do nosso ser, parte da nossa natureza e, de fato, a sede por Deus é perceptível na humanidade em qualquer era. Mesmo nos afastando de Deus, a humanidade sentia a falta de um contato com algo maior, de pertencer a alguém, de fazer parte de um propósito maior, de conhecer sua origem e seu destino, e é por isso que existem tantas religiões: na revolta contra Deus e ao afastar Dele, a humanidade, ainda sentido esses desejos, criou seus próprios deuses a quem depositavam sua confiança, seu temor, sua vida, e é daí que surgem os ídolos e as superstições. Gerações passadas, muitos, em vários lugares do mundo, sem ter conhecido a Deus, o buscavam de forma sincera, buscavam a verdade, buscavam saciar essa sede de Deus que brota de dentro da nossa natureza humana e esse Deus passou a se revelar, não por completo, mas aos poucos os apresentava mais e mais a Sua Pessoa – Deus é uma única natureza em três Pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo.

São João Crisóstomo dizia: “Quem reza certamente se salva; quem não reza certamente se condena”. A relação com Deus se faz necessária para a santificação, e a Sua graça é necessária para nossa purificação, justificação e também a santificação.

Portanto, resumidamente falando, a oração é importante para que nos relacionemos com Deus e é fundamental para que possamos ser santos.

Diferença entre orar e rezar

Toda reza é uma oração, mas nem toda oração é uma reza.

Toda forma de comunicação com Deus é chamada oração. Rezar é apenas uma das formas de orar.

A palavra oração vem do latim “oratio”, que, por sua vez, vem de oris, que significa “boca”. Então, “oratio” é a razão na boca.

Por isso, quando nós formulamos uma frase, por exemplo, no estudo da língua portuguesa, falamos de oração principal e oração subordinada, porque oração é uma frase, é uma frase que tem lógica.

Agora, a palavra “rezar” vem da palavra em latim “recitatio”, que significa recitação. Essa palavra é utilizada para, por exemplo, quando estamos rezando um salmo, pois ali nós estamos lendo, recitando um texto que está escrito. O saltério (Salmos) é o livro de orações principais da Bíblia, e, portanto quando estamos orando – falando a Deus, ou a algum anjo ou santo –, uma oração prescrita, chamamos de “rezar”, ou “recitar”.

Como orar?

Como dito por Santo Agostinho, e o catecismo parafraseia ainda no §2559, a humildade é a disposição necessária para receber gratuitamente o dom da oração: o homem é um mendigo de Deus.

Nas Sagradas Escrituras temos um grande manual de oração. Há diversos versículos tanto nos incentivando a orar quanto nos ensinando a orar.

Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina “quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto” (Mt 6,6). Neste primeiro versículo que eu trouxe, Jesus já nos traz uma orientação: orar não para se aparecer aos outros, mas para de fato buscar intimidade com Deus. Não precisa ser necessariamente no quarto. No contexto em que Jesus disse isso haviam pessoas que oravam em público não com intenção de buscar intimidade com Deus, mas meramente para cumprir um preceito judaico e também para se vangloriar, se mostrar à população como pessoa justa, cumpridora dos preceitos, como exemplar; e ainda em suas orações já se exaltavam como “Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros”, conforme nos mostra a Parábola do Fariseu e do Publicano em Lc 18,8-14.

Portanto, é importante reservarmos períodos do nosso dia para orar no íntimo com Deus, mas também é importante orar em grupo, com a família, com amigos, na Igreja, no trabalho e etc, mas não com o intuito de se autopromover, mas com sinceridade e reto propósito: pedir as graças de Deus para o dia de trabalho, para ser um pai ou mãe melhor, filho ou filha melhor, exaltar e agradecer a Deus por todas as coisas.

Quais são as “vãs repetições” que Jesus condena no evangelho segundo São Mateus 6,7?

Em algumas traduções da Bíblia, vemos escrito em Mt 6,7 “E, orando, não useis de vãs repetições”. Entretanto, no escrito original, o evangelista São Mateus nos escreve:

“Μὴ προσεύχεσθε ὡς οἱ ἐθνικοί, ὅτι νομίζουν ὅτι ἐν τῷ πολλῷ λόγῳ αὐτῶν εἰσακουσθήσονται.”

A palavra que destaquei em negrito, πολλῷ λόγῳ (polló lógo), que é traduzido nessas versões como “vãs repetições”, na verdade significa “muitas palavras” (ou “muitas razões”).

Portanto, Jesus se refere a não utilizar muitas palavras “como fazem os gentios”, o que não quer dizer que não podemos fazer longas orações, mas não devemos pôr a confiança de que, pelo fato de falarmos muito, Deus irá nos ouvir, porque não é no muito falar que Deus irá nos ouvir. O versículo mesmo mostra o sentido em que Jesus diz para não usar “muitas palavras”: “como fazem os gentios [ou “pagãos”, em algumas traduções] que pensam que serão ouvidos à força de palavras”.

Portanto, o ensinamento que Jesus nos traz é: não achem que por ficarem multiplicando palavras Deus irá realizar seus pedidos.

Oração do Pai-Nosso

Outra grande orientação sobre “como orar” Jesus nos traz ao ensinar a oração do Pai-Nosso, que aparece nas Sagradas Escrituras em duas versões: Mt 6,9-13 e Lc 11,2-4. Devemos nos lembrar que esses Evangelhos foram escritos depois do ano 80 d.C. Assim, os autores escreveram conforme a tradição que receberam: no caso de São Mateus, que era apóstolo e testemunha dos fatos, e no caso de São Lucas, que não era apóstolo, mas buscou informações e testemunhos para escrever o Evangelho.

A Igreja, na sua Tradição litúrgica, conservou uma forma comum do Pai-Nosso, que harmoniza as duas versões presentes nos Evangelhos, para que todos os fiéis possam rezá-lo em unidade.

Em latim:

Pater noster qui es in caelis:

sanctificetur Nomen Tuum;

adveniat Regnum Tuum;

fiat voluntas Tua,

sicut in caelo, et in terra.

Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;

et dimitte nobis debita nostra,

sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;

et ne nos inducas in tentationem;

sed libera nos a Malo.

Em português:

Pai Nosso que estais nos céus,

santificado seja o vosso Nome,

venha a nós o vosso Reino,

seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje,

perdoai-nos as nossas ofensas

assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,

e não nos deixeis cair em tentação,

mas livrai-nos do Mal.

Fiz questão de trazer a versão do Pai Nosso em latim e em português para responder algumas perguntas comuns como “por que na Bíblia está escrito ‘dívidas’ e na Igreja se reza ‘ofensas’?” e “por que na primeira parte se diz ‘céus’ e na Bíblia está ‘céu’?”.

Respondendo à primeira pergunta – “por que ofensas e não dívidas?” –, mesmo no latim a Igreja utilizou “debita” (dívida). Entretanto, ao traduzir para o português, para deixar a oração mais próxima do contexto no qual Jesus diz ὀφείλημα (opheílēma) – como nos é mostrado no Evangelho de São Mateus, que foi escrito originalmente em grego –, essa palavra tem um sentido mais amplo de dívida, também se utilizava para se referir a dívidas morais, como ofensas; e no contexto da oração, não nos tratamos de dívidas financeiras para com Deus, mas sim de dívidas morais, ou seja, ofensas. Então, com o intuito catequético e para contextualizar, a Igreja nos ensina a orar pedindo o perdão das “ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Respondendo à segunda pergunta – “por que ‘céus’ e não ‘céu’?” –, resumidamente, porque no original (em grego) está escrito no plural mesmo. Está escrito, no Evangelho segundo São Mateus, οὐρανοῖς (ouranoís), que é “céus”; já no Evangelho segundo São Lucas, está escrito apenas “Pai! Santificado seja o teu nome”. Então, apesar de estar escrito “céu” em algumas Bíblias, o correto é “céus”.

Aprofundando um pouco mais, há um sentido teológico no uso do plural nessa parte. A palavra “céus”, no hebraico – que é a língua materna de São Mateus e também de Nosso Senhor Jesus Cristo –, é שָׁמַיִם (shamayim), que em toda a Bíblia é usada para se referir à morada celeste. Já quando é dito no singular, “céu”, na parte “assim na terra como no céu”, estamos nos referindo ao cosmos criado (céu físico, visível), que junto da terra deve estar em harmonia com a vontade de Deus.

Oração da Ave-Maria

Uma das mais antigas e importantes orações do cristianismo é a Ave-Maria, que se inicia com a saudação do anjo Gabriel à Virgem Maria, conforme nos relata o Evangelho segundo São Lucas (Lc 1,28): “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo”, e sucede com as palavras de Santa Isabel, mãe de São João Batista, conforme nos relata o mesmo Evangelho em Lucas (Lc 1,42): “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”.

Durante muitos séculos essa oração era composta apenas por essas duas partes: a anunciação do anjo e a exclamação de Santa Isabel que estava cheia do Espírito Santo. Entretanto, com o passar do tempo, especialmente a partir do século XIV, a oração foi sendo ampliada nas devoções populares a súplica “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores”. No século XVI, o Concílio de Trento confirmou e difundiu essa formulação, que foi fixada definitivamente no Breviário Romano por São Pio V no formato que conhecemos hoje:

“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.

Bendita sois vós entre as mulheres,

e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, Mãe de Deus,

rogai por nós, pecadores,

agora e na hora da nossa morte. Amém.”

Essa oração, assim como todo o estudo de mariologia (estudo sobre Maria, mãe de Jesus), é cristocêntrica – ou seja, tem por centro o Cristo, tem a finalidade de louvá-lo. Note que logo na primeira parte da Ave-Maria, o ponto culminante é “bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. Ou seja, já no núcleo da oração, Maria é lembrada por causa de Jesus. 

Já na segunda parte, se diz “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós”. Esse pedido de intercessão se apoia no título “Mãe de Deus” (Theotokos), que é uma definição cristológica onde, ao chamar Maria de Mãe de Deus, estamos confessando a divindade de Cristo, estamos afirmando claramente que Jesus é Deus.

O coração da oração não é Maria por si mesma, mas Maria em relação a Cristo. Na primeira parte, louvamos Maria porque dela nasceu Jesus. Na segunda parte, pedimos sua intercessão como Mãe do Salvador. O nome de Jesus é o ponto central. Nós suplicamos pela oração de Maria a Jesus por nós, por ela ser uma pessoa tão próxima e respeitada por Ele; para que, assim como nas Bodas de Caná, pela intercessão de Maria, Jesus realize o milagre, atendendo a nossa súplica.

Tal como costumamos pedir a nossos pais, irmãos, líderes religiosos, anjos e santos que intercedam (orem a Deus) por nós, por serem pessoas de maior proximidade de Cristo, assim pedimos a Maria que, sendo a mãe Dele, é a criatura mais próxima e mais amada e mais respeitada por Ele.

São Luís Maria Grignion de Montfort, escritor do Tratado da Verdadeira Devoção À Santíssima Virgem, nos ensina em seu livro: “Maria é o caminho mais seguro, fácil, curto e perfeito para se chegar a Jesus Cristo”.

A invocação de Maria nunca se fecha em si mesma, mas aponta sempre para Cristo. O ponto culminante da oração é o nome de Jesus, tanto na primeira parte (citação bíblica) como no sentido do título “Mãe de Deus”.

Oração Vinde Espírito Santo

Outra oração muitíssimo importante é a oração “Vinde Espírito Santo”. Essa oração é muito antiga, provavelmente usada desde os primeiros séculos nas liturgias cristãs do Ocidente.

A oração foi fixada no Missal Romano e é rezada especialmente nas celebrações de Pentecostes, mas também é usada antes de reuniões, estudos, decisões importantes ou momentos de oração pessoal.

Essa se trata de uma oração fortemente fundamentada nas Sagradas Escrituras e está enraizada na promessa de Jesus: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26). Ela também nos lembra o Pentecostes onde “Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,4) e também o pedido “renovareis a face da terra” ecoa o Salmo 104(103),30: “Enviais o vosso sopro, e eles são criados, e assim renovais a face da terra”.

“Vinde Espírito Santo,

enchei os corações dos vossos fiéis

e acendei neles o fogo do Vosso Amor.

Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado

e renovareis a face da terra.

Oremos:

Ó Deus que instruíste os corações dos vossos fiéis,

com a luz do Espírito Santo,

fazei que apreciemos retamente todas as coisas

segundo o mesmo Espírito

e gozemos da sua consolação.

Por Cristo Senhor Nosso. Amém”

Esta oração é muito poderosa. Nela suplicamos a vinda do Espírito Santo para nos guiar e acender nossos corações para caminharmos retamente no caminho de Cristo.

Conclusão

Por fim, essa foi uma breve catequese a respeito do tema oração. Não deixem de orar. Orar é um dom muito dado por Deus a todos. Orar, resumidamente, é falar com Deus. Assim como amamos conversar com uma pessoa pela qual estamos apaixonados, devemos também nos esforçar todos os dias para reservar um tempo para conversar com Deus, contar como foi nosso dia, o que nos incomodou, o que nos agradou, o que ansiamos, agradecê-Lo e bendizê-lo. Apesar de Ele saber de todas as coisas, Ele quer ouvir de nós, Ele quer fortalecer Seu vínculo conosco através da oração diária.

Louvado seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!

Abaixo seguem as nossas fontes para a composição deste artigo.

Bibliografia

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